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Sítio Remanso - Águas da Prata, SP

Blog EntryMar 1, '07 2:32 PM
for everyone

"Ártemis, a Imaculada,

É tomada por raiva e compaixão

Vendo os cães de caça do seu pai

Matando as indefesas lebres

E devorando os filhotes recém nascidos.

 

Arrepios de horror e náusea

Percorrem o seu corpo

Olhando o festim dos abutres

Os seus suspiros mostram a dor e a tristeza

Ártemis, Senhora das criaturas desamparadas.

 

Gentil e amorosa protetora

Que cuida dos filhotes e das fêmeas prenhes

Tu tens amor e compaixão

Por todos os animais escondidos nas florestas

E os defendes contra caçadores e predadores.”

Hino a Ártemis, por Ésquilo

 

Ártemis representa a identidade mística e primitiva da caça e do caçador por ser a remanescente grega do arquétipo da Mãe dos Animais, a Senhora da Natureza, protetora de todas as criaturas. Nas representações mais antigas, ela aparecia cercada de animais, ou segurando uma lebre, um lobo, um javali, uma corça ou um urso. Ártemis não era apenas a Regente da Natureza, mas também a personificação do instinto selvagem, da ânsia pela liberdade e do aspecto indômito da essência feminina.

Conhecida como “A Caçadora Solitária” dos mitos mais recentes – que a descrevem como uma deusa virgem lunar cercada por um séquito de ninfas, que evitava os homens e caçava com seu arco e flechas de prata – Ártemis originariamente possuía uma complexidade de atributos e manifestações. Cultuada no período neolítico como a “Senhora dos Animais”, ela teve suas características maternas enaltecidas e veneradas como Efésia, a “Mãe dos Mil Seios”, cujo templo, em Éfeso, na Turquia – reconhecido como uma das sete maravilhas do mundo antigo – era servido por sacerdotisas virgens chamadas melissae (abelhas) e por sacerdotes castrados. A tribo das Amazonas a reverenciava como Astatéia, sendo sua padroeira e protetora de seus filhos, louvando-a com danças guerreiras realizadas ao som de címbalos e ao tilintar das espadas e dos escudos.

Os festivais mais conhecidos dedicados a Ártemis foram as celebrações das mulheres gregas de Tessalônia e Attica, realizadas nos bosques nas noites de Lua Cheia.

Como “Regente das Ninfas”, Ártemis protegia as mulheres contra as investidas dos homens; como “Senhora dos Animais”, punia os caçadores que ameaçavam a vida dos filhotes e das fêmeas; como "A Mãe dos Mil Seios”, regia a gravidez, o parto, as mulheres grávidas e os bebês. Considerada sucessora da deusa pré-helênica Eileithya, a padroeira dos partos, Ártemis era invocada e honrada pelas mulheres com orações e oferendas de leite e mel depositadas nas grutas e nas fendas da terra.

Uma das mais simbólicas representações zoomórficas de Ártemis é como “A Mãe Ursa”, identificada com a constelação Ursa Maior, tendo sido cultuada na Suíça como Artis e posteriormente cristianizada como Santa Úrsula. Desde a antiguidade, a ursa era honrada como a mãe amorosa e brincalhona, mas também temida como uma feroz defensora de seus filhotes. A devoção materna da ursa foi adotada como símbolo da maternidade e Ártemis, como Mãe Ursa, era a padroeira dos ritos de iniciação das meninas. No templo de Braurronia, as meninas dedicadas ao seu culto, chamadas de artoi (ursinhas), se vestiam com peles de urso e dançavam nas noites de Lua Cheia, aprendendo os mistérios da noite e do ciclo vida-morte. Ártemis tinha também o seu lado escuro: como “Mãe da Morte” recebia os animais sacrificados ou mortos nas caçadas e conduzia as almas das mães falecidas durante o trabalho de parto.

Os romanos adotaram muitas das características de Ártemis e transferiram-nas para Diana, uma deusa antiga regente do Sol, da Lua e da Terra. Com o passar do tempo, a complexidade da Deusa Ártemis/Diana foi se diluindo nas versões patriarcais que enfatizavam apenas o aspecto da virgem solitária que caçava com suas ninfas nas noites de Lua Cheia. A Inquisição denunciou o culto de Diana como pagão e pernicioso à alma cristã, punindo suas seguidoras como bruxas libertinas. Foi assim que surgiu a versão medieval que denominava Diana de “A Rainha das Bruxas” e sua adoção como padroeira dos covens feministas da wicca e do lesbianismo.

Para as mulheres contemporâneas, o arquétipo de Ártemis traz três ensinamentos extremamente importantes.

O primeiro deles refere-se ao aspecto “virginal” da Deusa. Esta palavra nada tem a ver com castidade, pois ela significava “auto-suficiência” para os antigos, ou seja, a mulher pode sentir-se plena, segura e realizada por si mesma, sem buscar ou necessitar do auxílio ou amparo masculino.

O segundo ensinamento, decorrente do primeiro, é sobre a necessidade das mulheres saberem se proteger, em todos os níveis, de qualquer tipo de agressão ou intromissão. Assim como as “Mães Ursas, elas também devem defender suas “crias”, principalmente as meninas, orientando-as a evitarem as investidas dos “caçadores” e predadores da selva de concreto.

O terceiro aprendizado trazido por Ártemis pode ser resumido na expressão “voltar à terra”, ou seja, resgatar a conexão primordial com a Natureza – interior e exterior, e recuperar as energias perdidas no stress urbano.

O eco-feminismo – surgido nos Estados Unidos na década de 80 – é uma manifestação atual da consciência artemisiana, exigindo proteção para animais e plantas, alertando sobre os perigos da poluição e a devastação da natureza e relembrando às mulheres a sacralidade de suas vidas, de seus corpos e sua responsabilidade como “filhas de Ártemis”.


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